Caixa dois de Pimentel pagou obras em restaurante, diz PF

Caixa dois de Pimentel pagou obras em restaurante, diz PF

A Polícia Federal finalizou mais um inquérito da Operação Acrônimo que investigava o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), e concluiu que o petista usou recursos de caixa dois de sua campanha eleitoral para construção e reforma de uma unidade do restaurante Madero, em Piracicaba (SP), da qual seria sócio oculto.


Interrogada pela PF, uma das donas da hamburgueria admitiu que o nome do governador foi incluído na sociedade, mas, diante do avanço nas investigações contra Pimentel, o contrato não foi registrado na Junta Comercial para não deixar pistas.


Por esses fatos, a PF imputou a Fernando Pimentel e mais dois envolvidos no caso a ocorrência dos crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa. O relatório final da PF, foi enviado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) há duas semanas e está sob sigilo. No último dia 23, o inquérito foi remetido à Procuradoria-Geral da República (PGR), a quem caberá analisar o material e decidir se oferece formalmente uma nova denúncia contra Pimentel.


No dia 18 de abril, em depoimento à PF, a sócia-minoritária do negócio, Natacha Pfister, disse que outro parceiro na empreitada, Felipe Torres, foi quem revelou a participação de Pimentel no restaurante. Filho de uma prima da ex-mulher de Pimentel, Torres é amigo do governador mineiro. “Felipe comentou que Fernando Pimentel nem iria integralizar o valor das cotas, por conta dos fatos registrados acima e para preservar a imagem do restaurante”, disse.


As investigações detectaram que as obras no restaurante de Pimentel custaram R$ 550 mil e foram pagas com recursos repassados por uma gráfica usada para recolher dinheiro de caixa dois para a campanha do governador. As transferências financeiras foram entre a gráfica Nova América, que emitia notas fiscais falsas para a campanha do petista, e a Kobis MML, empresa de reformas. O administrador da Kobis e responsável pelas obras, Marcelo Vieira, afirmou à PF que tratou do assunto com Felipe Torres.


“Ficou acordado com Felipe que a obra seria paga à vista, sendo que o valor de R$ 550 mil iria ser depositado de uma única vez pela gráfica Nova América”, afirmou Marcelo Vieira, em depoimento à PF.


Por meio da quebra de sigilo bancário, a PF identificou que a gráfica Nova América recebeu aproximadamente R$ 2 milhões de três empresas do setor de transportes, a Gontijo de Transportes Limitada (R$ 1,08 milhão), Viação Águia Branca (R$ 603 mil) e Viação Salutaris e Turismo (R$ 297 mil). Segundo a PF, os pagamentos eram para repassar caixa dois à campanha de Pimentel, sem a efetiva prestação de serviços gráficos a essas empresas. São esses recursos que abasteceram as obras no Madero, segundo a PF.


A investigação surgiu com a suspeita de que a origem dos recursos tinha sido a montadora Caoa, mas a quebra de sigilo afastou o envolvimento da empresa porque não houve pagamentos dela à gráfica de fachada.


O trâmite financeiro foi coordenado pelo operador de Pimentel, Benedito de Oliveira, o Bené, que revelou esse fato em sua delação premiada. A gráfica pertencia a Sebastião Pereira, mas era usada por Bené para operações financeiras.


Pimentel já é réu no STJ sob suspeita de receber propina para favorecer a Odebrecht quando era ministro. Além desse caso, foi alvo de outras três denúncias. O episódio envolvendo o Madero pode resultar na quinta acusação contra o governador de Minas.


“Toda essa engenharia de transações financeiras foi realizada com o notório intuito de ocultar a origem dos valores ilícitos, provenientes das empresas Gontijo, Viação Águia Branca e Viação Salutaris, depositados na gráfica Nova América, em setembro e outubro de 2014, valores estes que seriam provenientes de caixa dois da campanha de Fernando Damata Pimentel ao cargo de governador do ano de 2014”, diz a PF no relatório.


Felipe Torres, Bené e Sebastião foram indiciados por lavagem de dinheiro e Marcelo Vieira, por falsidade ideológica. O restaurante no shopping Piracicaba foi inaugurado em 29 de abril de 2015. A PF localizou um documento de março daquele mostrando que Pimentel ingressaria como sócio formal, mas os planos não foram adiante por causa da deflagração da Acrônimo, que levou os sócios a ocultarem o nome de Pimentel do negócio. Felipe Torres admitiu à PF que era amigo “de longa data” de Pimentel.


Procurado para comentar, o advogado do petista, Eugênio Pacelli, afirmou que não se manifestaria sobre o relatório da PF porque indica apenas o ponto de vista da autoridade policial, sem ouvir a defesa nem o contraditório.


MADERO: FILIAL RECOMPRADA


A assessoria do Madero informou que, à época dos fatos, a unidade no shopping Piracicaba era uma franquia, mas o restaurante foi recomprado. Na 7ª fase da Acrônimo, cujo alvo era a transação envolvendo o restaurante, o Madero divulgou nota afirmando que, em outubro de 2015, recomprou a franquia e encerrou a relação comercial com Felipe Torres.


O advogado da Caoa no caso, Paulo Emílio Catta Preta, disse que a investigação demonstrou o “equívoco das declarações do delator”. “Restou afinal comprovado que a Caoa nunca realizou qualquer pagamento de vantagem indevida”, disse.


A reportagem não conseguiu contato com as empresas Gontijo, Viação Águia Branca e Viação Salutaris. As informações são do jornal O Globo.

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